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vendasEdição #186

#186: A Guerra dos Listings

Zillow, Compass e a batalha pelo controle do imóvel à venda

Bruno Loreto
Bruno Loreto
CEO & Cofundador, Terracotta Ventures
26 de jun. de 20267 min de leitura

A nova guerra do mercado imobiliário americano é por quem controla o imóvel à venda antes que ele chegue ao grande público.

De um lado está a Zillow, o maior portal imobiliário residencial dos EUA, cuja força sempre veio de reunir praticamente todo o inventário disponível em uma única vitrine digital. 

Do outro está a Compass, hoje a maior corretora residencial americana após a fusão com a Anywhere, que defende um modelo em que parte dos imóveis circula primeiro dentro da sua própria rede de corretores, antes de aparecer nos portais e nas bases abertas do mercado.

O que está em jogo é a arquitetura econômica do setor:

  • Se todo imóvel precisa ser público, os portais preservam seu poder: atraem compradores, concentram audiência e vendem leads para corretores. 

  • Mas, se grandes corretoras conseguem manter imóveis por mais tempo dentro de redes privadas, o centro de gravidade muda. O poder sai de quem controla o tráfego e vai para quem controla o inventário.

Essa é a Guerra dos Listings.

O listing deixou de ser commodity

Durante anos, a economia dos portais imobiliários americanos foi simples:

A Zillow agregava praticamente todos os imóveis à venda, atraía o maior público de compradores do país e vendia leads de volta aos corretores. 

A Compass popularizou uma estratégia de marketing em fases:

Primeiro, o imóvel circula como private exclusive, acessível apenas dentro da rede da corretora. Depois, pode aparecer como coming soon.

Só então vai para o mercado público e para os portais.

A justificativa pública é que o vendedor ganha mais controle sobre exposição, timing e privacidade. 

A lógica econômica, no entanto, é mais agressiva:

  • Ao reter o imóvel dentro de casa, a corretora aumenta a chance de representar os dois lados da transação – vendedor e comprador – e capturar uma parcela maior da comissão.

  • Em um setor no qual as comissões ficaram mais pressionadas após o acordo da NAR em 2024, controlar inventário virou uma forma de recompor margem.

  • A mudança da NAR proibiu ofertas de compensação dentro dos MLSs e reforçou a necessidade de acordos mais explícitos e negociáveis entre compradores e seus agentes.

Quando o preço da intermediação cai, o poder migra para quem controla a oferta.

Dois modelos de negócio incompatíveis

A Zillow e a Compass estão brigando porque seus modelos dependem de premissas opostas.

A Zillow ganha quando o imóvel é público. Quanto mais listings disponíveis, mais compradores entram na plataforma. Quanto mais compradores, mais valioso é o tráfego. Quanto mais tráfego, maior a capacidade de vender leads, mídia, ferramentas e serviços para profissionais do setor.

A Compass ganha quando o imóvel fica dentro da sua rede pelo maior tempo possível. Quanto mais imóveis exclusivos, maior a chance de atrair compradores para seus próprios agentes. Quanto mais compradores dentro da rede, maior a probabilidade de fechar os dois lados da transação.

A Zillow monetiza abertura. A Compass monetiza controle.

Essa diferença explica por que a disputa escalou tão rapidamente.

  • Para a Zillow, listings privados corroem a promessa central do portal: ser o lugar onde o comprador encontra o mercado.

  • Para a Compass, a política da Zillow ameaça uma das poucas estratégias capazes de devolver poder de precificação à corretora em um setor de margem pressionada.

A resposta da Zillow: transparência ou defesa do próprio moat?

A Zillow reagiu com seus Listing Access Standards. A regra, em essência, dizia que imóveis comercializados publicamente por mais de 24 horas sem estarem disponíveis na Zillow poderiam ser banidos da plataforma. 

A empresa apresentou a política como uma defesa do consumidor: compradores deveriam ter acesso amplo e simultâneo ao inventário, sem precisar conhecer o corretor certo ou estar dentro da rede certa.

A Compass viu o movimento de outra forma. Em junho de 2025, a Compass processou a Zillow alegando que a política era uma prática anticompetitiva desenhada para proteger a dominância do portal. 

Em fevereiro de 2026, uma corte negou a liminar preliminar da Compass; em março, a empresa desistiu do processo, dizendo que mudanças na postura da Zillow atendiam parte de suas demandas. A Zillow, por sua vez, afirmou que seus padrões contra redes privadas continuavam em vigor.

O processo terminou, mas a guerra não.

O MLS virou um campo de batalha

Para entender esta briga, é preciso entender primeiro o papel do MLS.

Nos EUA, o MLS é a infraestrutura compartilhada que permite que corretoras concorrentes cooperem. Um imóvel captado por um agente entra em uma base comum, outros agentes podem apresentar compradores, e a informação circula com regras relativamente padronizadas.

Não é apenas uma base de dados; é o sistema operacional da intermediação residencial americana.

Por isso, a Clear Cooperation Policy da NAR foi tão importante. Ela exigia que um imóvel anunciado publicamente fosse submetido ao MLS em até um dia útil.

A regra foi criada para evitar exatamente o que agora volta a ganhar força: imóveis circulando em redes fechadas antes de chegarem ao mercado aberto.

  • Em 2025, a NAR manteve a Clear Cooperation, mas criou uma nova opção: os delayed marketing exempt listings.

  • A política entrou em vigor em 25 de março de 2025 e deveria ser implementada pelos MLSs até 30 de setembro do mesmo ano.

  • Na prática, permitiu que vendedores escolhessem adiar parte da distribuição pública do imóvel, desde que dentro das regras locais.

A intenção declarada era dar mais flexibilidade ao vendedor. Mas a consequência competitiva foi maior: grandes corretoras ganharam uma brecha para institucionalizar o marketing faseado.

O MLS, que nasceu como infraestrutura de cooperação, virou a trincheira central da guerra.

A bolsa já está precificando a disputa

O desempenho das ações ajuda a entender como o mercado financeiro está lendo essa guerra.

A Zillow acumula queda de cerca de 53% no ano. A leitura é que investidores não estão punindo apenas um ciclo imobiliário fraco, mas a possibilidade de erosão do seu principal moat – ser a vitrine mais completa do mercado residencial americano. 

A Compass, por outro lado, tem desempenho muito mais resiliente: oscila perto da estabilidade no ano, apesar da volatilidade recente. 

O mercado reconhece os riscos – integração da Anywhere, pressão regulatória e investigação antitruste – mas também enxerga uma tese clara:

Com mais escala, a Compass pode controlar mais inventário, aumentar o double-ending e capturar uma fatia maior da comissão.

Em outras palavras:

  • A Zillow está sendo precificada como uma plataforma cujo acesso ao inventário pode se deteriorar;

  • A Compass, como uma corretora tentando transformar inventário em poder de mercado. Essa diferença resume a guerra.

Três cenários possíveis

O primeiro cenário é a coexistência regulada.

  • Listings privadas continuam existindo, mas com limites de prazo, divulgação e consentimento explícito do vendedor.

  • A Zillow preserva relevância, a Compass mantém parte da estratégia e o MLS continua como infraestrutura central – ainda que menos absoluto.

O segundo cenário é uma reação pró-transparência.

  • Cortes, MLSs e reguladores fecham a brecha do marketing privado.

  • Listings exclusivas ficam restritas a situações específicas, como ultra-luxo, privacidade ou vendedores com justificativa clara. O modelo aberto sai fortalecido.

O terceiro cenário é a fragmentação.

  • Grandes corretoras ampliam redes fechadas, portais perdem completude e compradores passam a acessar o mercado por múltiplos jardins murados.

  • É pior para transparência, mas melhor para quem possui escala de inventário. Também é o cenário de maior risco regulatório.

O paralelo brasileiro

Aqui o elemento regulatório não se apresenta da mesma forma. Mas os drivers de mercado são análogos

Os portais consolidados no Grupo OLX vão perdendo força, enquanto vemos 1) a ascensão de startups que concentram grandes volumes de oferta e audiência e 2) uma poderosa mudança no que podemos esperar na jornada de busca de imóveis a partir da inteligência artificial.

É difícil prever o que vai acontecer, mas é fácil entender que a mudança é inevitável e os players atuais estão ameaçados.

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