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Barreiras para construção offsite no Brasil e potenciais soluções

A tecnologia já foi validada e o setor cresce em curva exponencial, o que trava a escala são cultura, regulação, tributação, incentivos e capital

Bruno Loreto
Bruno Loreto
CEO & Cofundador, Terracotta Ventures
24 de abr. de 20266 min de leitura

Este é o terceiro e último artigo de uma série dedicada à análise da construção offsite aplicada à Habitação de Interesse Social (HIS) no Brasil.

No primeiro artigo, foi demonstrado que o país reúne condições estruturais favoráveis à industrialização da construção, com demanda elevada, padronização e pressão por produtividade. 

No segundo, foi apresentada a trajetória do setor, evidenciando que a evolução não está mais na fase pioneira, mas sim na fase de escala, com a entrada de grandes players, apoio governamental e crescimento recente da produção. 


Hoje quem escreve é o Jose Marcio Fernandes: engenheiro mecânico e empreendedor com 18 anos de experiência na indústria automotiva e 15 anos na construção industrializada de larga escala. Atualmente, é fundador e CEO da Kata Machines & Systems, pioneira no Brasil em tecnologias e implantação de fábricas para construção offsite, e cofundador da Tecverde, referência nacional na tecnologia wood-frame.


Barreiras estruturais à industrialização da construção

A análise do setor permite identificar um conjunto de barreiras que não são tecnológicas, mas estruturais.

Essas barreiras estão relacionadas à forma como o setor está organizado, regulado e incentivado no Brasil.

1. Falta de cultura industrial nos agentes do setor

A construção civil brasileira ainda opera, majoritariamente, sob uma lógica artesanal.

Mesmo com a evolução recente, a transição para um modelo industrial exige mudanças profundas na forma de estruturar o negócio, incluindo:

  • planejamento antecipado; 

  • padronização de produto; 

  • integração entre projeto, produção e execução; 

  • gestão baseada em processos, e não em obras. 

A ausência dessa cultura industrial reduz a velocidade de adoção do offsite, mesmo em contextos onde sua viabilidade econômica já está comprovada.

Ações viáveis para remover a barreira

  • visitas técnicas a operações industriais; 

  • programas de capacitação executiva; 

  • formação técnica especializada; 

  • maior exposição a casos de referência nacionais e internacionais. 

2. Excesso de especificações prescritivas

Outro entrave relevante está no ambiente regulatório, especialmente em programas habitacionais e legislações municipais.

Apesar da existência de normas baseadas em desempenho, como a NBR 15575, ainda há forte presença de exigências prescritivas que limitam a adoção de soluções industrializadas.

Isso se manifesta em:

  • programas habitacionais com especificações construtivas rígidas; 

  • códigos de obras municipais pouco aderentes à inovação; 

  • dificuldade de aprovação de sistemas não convencionais. 

Esse modelo contraria o princípio da industrialização, que pressupõe liberdade de solução desde que o desempenho seja atendido.

Ações viáveis para remover a barreira

  • eliminação de exigências prescritivas em programas habitacionais; 

  • criação de mecanismos de exceção regulatória local, nos municípios, para empreendimentos HIS vinculados ao Minha Casa Minha Vida, permitindo adoção exclusiva da NBR 15575. 

3. Falta de isonomia tributária

A estrutura tributária atual não trata de forma equivalente os modelos construtivos tradicional e industrializado.

Na construção convencional, tipicamente verticalizada, a operação se beneficia do enquadramento no RET, resultando em uma carga tributária efetiva entre 1% e 4% sobre a receita.

Já no modelo industrializado, há fragmentação da cadeia entre fábrica, montagem e incorporação, o que leva à incidência acumulada de tributos ao longo do processo produtivo.

Como consequência, sistemas industrializados offsite sofrem com maior carga tributária efetiva, o que resulta em:

  • perda de competitividade frente ao modelo convencional; 

  • e desincentivo para especialização na fabricação offsite. 

Estudos do setor indicam que, à medida que aumenta o grau de industrialização, a carga tributária pode evoluir de forma relevante:

  • modelo pouco industrializado: ~4% 

  • modelo intermediário: ~6,5% 

  • modelo altamente industrializado: ~13,9% 

Esse aumento decorre da incidência combinada de tributos como PIS/COFINS, ISS e IPI, além de limitações no enquadramento de atividades industriais no RET. 

Ou seja, o modelo mais produtivo passa a ser, paradoxalmente, o mais penalizado do ponto de vista tributário.

Ações viáveis para remover a barreira

  • inclusão de fabricantes de componentes industrializados no regime do RET; 

  • reestruturação do enquadramento tributário para permitir tratamento equivalente entre produção em fábrica e produção em obra; 

  • adaptação dos modelos contratuais (ex.: consórcios ou SPEs) para viabilizar enquadramento adequado no RET. 

4. Falta de incentivos econômicos à sustentabilidade ambiental

A construção offsite apresenta ganhos ambientais relevantes, como:

  • redução de resíduos; 

  • maior eficiência no uso de materiais; 

  • menor impacto no canteiro; 

  • maior controle de qualidade e desempenho. 

No entanto, esses benefícios ainda não se traduzem de forma consistente em vantagens econômicas para o empreendedor ou para o cliente final.

Na ausência de incentivos claros, o mercado tende a priorizar o menor custo imediato, em detrimento de soluções mais eficientes ao longo do ciclo de vida.

Ações viáveis para remover a barreira

  • redução de taxas de juros na CEF para clientes finais em empreendimentos com certificação ambiental; 

  • priorização de soluções industrializadas em programas habitacionais com critérios de sustentabilidade. 

5. Alto investimento inicial e barreiras tecnológicas

Historicamente, a implantação de fábricas offsite exigiu elevado investimento de capital, associado principalmente à aquisição de máquinas e equipamentos, em sua maioria importados.

Esse fator resultou em:

  • alta barreira de entrada; 

  • longos prazos de implantação; 

  • dependência tecnológica externa; 

  • limitação do modelo a grandes empresas. 

Essa barreira, no entanto, vem sendo parcialmente superada.

A partir de 2025, inicia-se no Brasil a fabricação nacional de máquinas e equipamentos para construção offsite, reduzindo custos e prazos de implantação.

Paralelamente, seguindo uma tendência internacional, surgem modelos de microfábricas, permitindo produção em menor escala e maior proximidade dos mercados regionais.

A partir de 2026, essas microfábricas passam a ser disponibilizadas em modelo de arrendamento, consolidando uma lógica de factory as a service, na qual o investimento inicial é convertido em custo operacional.

Esse movimento reduz de forma significativa a barreira de entrada, ampliando o acesso de construtores e incorporadores de pequeno e médio porte a tecnologias industriais.

Ações viáveis para remover a barreira

  • abertura de linhas de crédito específicas para construção offsite. 

Uma leitura integrada das barreiras

As barreiras identificadas possuem uma característica comum: não estão relacionadas à viabilidade técnica da construção offsite.

A tecnologia já foi validada. A base industrial está em consolidação. O setor público atua como indutor. E a escala já começou a se materializar.

Conclusão: uma alavanca imediata para o setor

A construção offsite no Brasil já superou sua fase mais crítica.

O período de validação tecnológica, desenvolvimento industrial e estruturação normativa foi percorrido ao longo da última década.

O setor já apresenta uma curva de crescimento exponencial recente, conforme demonstrado no artigo anterior, indicando que a adoção do modelo entrou definitivamente em fase de aceleração.

Nesse contexto, as barreiras ainda existentes não impedem o crescimento — mas limitam sua velocidade.

A remoção desses entraves representa uma alavanca direta e imediata para a expansão do setor.

Destravar esses pontos tende a gerar impactos relevantes, como:

  • aumento da produtividade da construção; 

  • redução do custo habitacional; 

  • maior previsibilidade e velocidade de entrega; 

  • ampliação da escala de produção de HIS. 

Trata-se, portanto, de uma agenda com impacto direto na economia brasileira.

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